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Quando bate aquela saudade

  • Foto do escritor: André Botinha
    André Botinha
  • há 19 horas
  • 4 min de leitura

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"Por muito tempo achei que a ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim."


Carlos Drummond de Andrade


Durante toda a minha infância, a gente passava os feriados e as férias na cidade do meu pai, no interior de Minas. Ele era o caçula de cinco irmãos. Minha avó já tinha 46 anos quando ele nasceu — por pouco, eu não estaria aqui.


Mas, de alguma forma, os tempos se alinharam. Eu e meus primos nascemos quase todos mais ou menos na mesma época. E, quando a gente se reunia, era como se o mundo todo coubesse naquele encontro.


Dias longos, intensos, cheios de vida. Nós éramos inseparáveis. E, até hoje, quando penso em família… é para lá que a memória me leva. Mas tinha uma coisa que a gente nunca conseguia superar: o tempo. Sempre chegava o dia de ir embora. E era uma partida profundamente doída.


De repente, tudo aquilo que tinha sido tão vivo, precisava ficar para trás. Eu voltava para casa carregando uma espécie de vazio — uma saudade ainda fresca do que tínhamos vivido juntos.


Descíamos com as malas da casa do tio Gonçalo, o nosso ponto de encontro — ele foi o único tio que continuou morando na cidade natal. E o Bruno, seu filho, era o primo que permanecia quando todos os outros partiam.


Talvez por isso, numa das despedidas, ele tenha conseguido dizer algo que nenhum de nós dimensionava: “sempre é pior pra quem fica.”


Existe algo importante nessa percepção infantil: a saudade não nasce só da distância. Ela nasce do encontro. Talvez porque a ausência não seja vivida da mesma forma por quem vai e por quem fica. Quem vai segue em movimento, muda de cenário, se distrai com o que vem pela frente. Quem fica permanece. Convive com o espaço vazio, com os rastros do que ainda há pouco estava vivo. E, de algum modo, precisa conviver com a ausência.

 

Só sente falta quem, em algum momento, esteve verdadeiramente junto. E é justamente isso que torna a experiência tão ambígua: dói porque algo se perdeu — mas, ao mesmo tempo, continua existindo de alguma forma.


Do ponto de vista do desenvolvimento emocional, essa experiência começa muito cedo. Donald Winnicott descreveu esse processo de uma forma muito sensível ao falar dos chamados objetos transicionais — um travesseiro, um brinquedo, um pedaço de tecido já gasto pelo tempo, que a criança segura com tanta força. Para quem vê de fora, pode parecer só um objeto. Mas, para ela, não é.


Ali existe uma ponte. Uma forma de manter o vínculo mesmo na ausência. Um espaço intermediário entre o mundo externo e o mundo interno, onde a criança começa, pouco a pouco, a sustentar dentro de si aquilo que antes só existia fora.


Com o tempo, essa capacidade se aprofunda. A criança não apenas entende que o outro continua existindo quando não está por perto — ela passa a sentir que o vínculo também permanece. É o que a psicologia chama de constância emocional: a possibilidade de amar alguém mesmo na ausência, sem que o afeto esmoreça a cada separação.


E é nesse ponto que a saudade ganha um outro contorno. Mas aqui não queremos romantizar demais essa experiência. Porque a saudade não é só presença internalizada. Ela é, também, falta. E uma falta aguda.


Há algo que se rompe na despedida. Algo que não pode ser totalmente substituído pela memória. O abraço que faz falta, a conversa que não continua e olhar que não está ali. Ignorar isso seria distorcer a experiência.


Talvez a maturidade emocional não esteja em deixar de sentir essa dor, mas em conseguir sustentá-la sem que o vínculo se perca. Amadurecer, nesse sentido, não é precisar menos do outro. É poder continuar em relação com ele — mesmo na ausência.


E isso muda muita coisa na vida adulta. Porque, ao longo do tempo, vamos inevitavelmente nos deparando com diferentes formas de ausência: mudanças, distâncias, desencontros e perdas. E, diante disso, cada um encontra um jeito de lidar.


A língua portuguesa, talvez mais do que muitas outras, dá nome a essa experiência: saudade. Saudade não é apenas nostalgia. É uma palavra que guarda essa ambivalência: presença e ausência, dor e aconchego.


Sentir saudade é, de alguma forma, testemunhar que o vínculo encontrou um lugar dentro de nós. E talvez seja por isso que a frase do meu primo continue fazendo sentido tantos anos depois. Porque, de fato, para quem fica…algo muda. O espaço não é mais o mesmo. O tempo parece se reorganizar. E o outro, que antes estava ali fora, precisa, de alguma forma, encontrar um lugar dentro de quem ficou.


Mas talvez exista também uma outra forma de olhar para isso. Porque, se é pior para quem fica… é também quem fica que tem a chance de perceber algo essencial: que o que foi vivido passa a fazer parte de quem a gente é.


Talvez seja isso que a saudade nos ensina, quando conseguimos escutá-la com mais cuidado: ela não existe apesar do amor — ela existe por causa dele.

 
 
 

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André Botinha de Sousa

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