Páscoa e infância: para além do chocolate
- André Botinha

- 5 de abr.
- 4 min de leitura

“Deixai vir a mim as crianças, não as impeçais, pois o Reino dos Céus pertence aos que são semelhantes a elas.”
Mateus 19:14
Esta é uma frase conhecida. Mas traz uma pergunta profunda e instigante: semelhantes em que sentido?
O que há nas crianças que garante a elas o Reino dos céus?
Antes de seguir, vale um cuidado: o que vem aqui é um exercício reflexivo. Uma tentativa de pensar, a partir do que temos hoje, uma fala registrada há mais de dois mil anos.
No tempo de Jesus, crianças não ocupavam o lugar que ocupam hoje. É preciso caminhar dois mil anos para trás para poder dimensionar isso. Eram tidas como frágeis e dependentes. Estavam na base da hierarquia social — sem poder, sem prestígio e sem voz.
Quando os discípulos tentam afastá-las, não estão sendo duros. Estão sendo coerentes com a lógica do mundo em que vivem. E é exatamente ali que Jesus interrompe. Ele não apenas permite que as crianças se aproximem. Ele afirma que o Reino pertence a quem é como elas.
Não é um gesto de carinho. É uma inversão completa de valores para a época.
Existe uma leitura comum dessa passagem: a de que Jesus está exaltando a inocência, a pureza e a bondade infantil. Mas isso não se sustenta — nem para quem vivia naquela época, nem para nós hoje. Crianças não são moralmente puras. Elas são cheias de vida, curiosas, às vezes travessas, muitas vezes espontâneas. O que há nelas não é perfeição. É outra coisa.
Talvez o ponto esteja menos no que a criança é e mais na forma como ela se posiciona no mundo. A criança vive em dependência. Ela não conquista o mundo — ela o recebe. Não se ampara pelo controle, mas pela confiança. Ela existe na relação. E, do ponto de vista psicológico, isso é central.
Winnicott diria que essa é a condição para que a vida psíquica se organize. Ninguém começa sendo autônomo. A experiência de ser sustentado é o que permite, depois, sustentar a si mesmo.
Por isso, amadurecer não é deixar de depender. É aprender a depender sem se desorganizar.
E é aqui que a coisa se torna mais delicada. Porque a vida adulta é complicada e exigente. Estamos todos tentando dar conta.
Crescer exige aprender a agir a partir do que é necessário. Assumir responsabilidades, tomar decisões, lidar com frustrações que não podem mais ser amortecidas da mesma forma. Mas existe um ponto de tensão nesse processo.
O problema não é que passamos a viver a partir do necessário. O problema é quando o necessário ocupa todo o espaço do possível. Pouco a pouco, aquilo que não é imediatamente crucial vai ficando em segundo plano. A abertura. A confiança. A disponibilidade para o encontro. A capacidade de se deixar afetar.
Não porque deixaram de ser importantes. Mas porque, em muitos momentos, não parecia haver espaço para aquilo que não resolve o imediato — não responde às urgências do dia. E assim, o que é essencial…vai sendo tratado como se fosse adiável.
E, sem perceber, vamos nos organizando de um jeito mais protegido. Com mais controle, mais previsibilidade e menos exposição. Mais garantido, mas, ao mesmo tempo, menos vivo.
Talvez seja por isso que a infância carrega algo tão importante — não como ideal a ser preservado, mas como revelação de um modo de existir.
Um modo que inclui:
vínculos profundos, onde a vida ganha significado e profundidade;
curiosidade diante do mundo, que mantém a experiência viva e deslumbrante;
capacidade de se maravilhar com o que é maior do que nós;
liberdade para imaginar e criar para além do que já está dado;
e, talvez o mais difícil de tudo: a possibilidade de reconhecer que precisamos do outro.
A ciência contemporânea confirma isso de várias formas diferentes: relações de qualidade são o principal preditor de bem-estar ao longo da vida. A curiosidade sustenta propósito. A admiração amplia a conexão. A capacidade de pedir ajuda fortalece a resiliência.
Nada disso é exclusivo da infância, apesar de, muitas vezes, vivermos como se fosse. Mas tudo isso aparece com uma naturalidade na infância que, ao longo do tempo, nos arriscamos a perder.
Talvez Jesus não esteja convidando ninguém a voltar a ser criança. Mas a não perder completamente aquilo que a infância revela: para receber, é preciso estar com as mãos vazias.
Talvez o Reino dos Céus não pertença às crianças por aquilo que elas ainda não aprenderam…mas por aquilo que nós, ao aprender, corremos o risco de esquecer.
Sob esse ponto de vista, amadurecer não significa se afastar da infância. Mas encontrar uma forma mais inteira de não deixar isso adormecer. Não abrindo mão da responsabilidade. Nem da autonomia. Nem da necessidade. Mas sem deixar que o que é urgente silencie o que é essencial.
Porque, no fim, talvez seja nesse espaço que algo da experiência do Reino dos céus se torne possível, aqui mesmo, na Terra.




Excelente reflexão! Já estou esperando o lançamento do livro. 👏