Dia das Mães
- André Botinha
- 10 de mai.
- 3 min de leitura

Há um momento curioso da maternidade que quase ninguém nomeia.
Ele acontece, às vezes, no silêncio mais simples: ao ver um filho dormir, ao ouvir uma risada que lembra a própria infância, ao repetir uma frase que um dia foi dita pela própria mãe, ao perceber que certas formas de amar atravessam gerações sem pedir licença. É como se, de repente, cuidar de uma criança não falasse apenas sobre o futuro. Falasse também sobre origem.
No Dia das Mães, falamos muito sobre o que uma mãe oferece. Mas talvez exista algo igualmente importante: aquilo que a maternidade devolve. Porque, quando nasce um filho, nasce também uma nova leitura da própria história.
Ser mãe não envolve apenas mudar o centro de gravidade da própria vida. É, muitas vezes, reencontrar partes de si que estavam silenciosamente esperando para serem encontradas. Há mulheres que descrevem isso com clareza: “Depois que meu filho nasceu, eu nunca mais fui exatamente a mesma.”
Mas talvez a frase mais precisa seja outra: “Depois que meu filho nasceu, eu encontrei partes de mim que ainda não conhecia.” Algumas luminosas. Outras nem tanto.
Winnicott, com a delicadeza de quem observava o início da vida sem idealizá-lo, descreveu que, no final da gestação e nas primeiras semanas após o parto, a mulher entra em um estado especial que chamou de preocupação materna primária. Não se trata apenas de devoção ao bebê. É quase uma reorganização da forma de estar no mundo.
Uma sensibilidade mais aguçada. Uma identificação profunda com aquele ser absolutamente dependente. Uma espécie de retorno silencioso a experiências muito primitivas da própria existência.
Ela não está apenas aprendendo a cuidar. Ela está, de certo modo, mudando de estado. Porque ser mãe é mais do que acrescentar uma nova tarefa à vida anterior. É descobrir uma nova identidade, que é, ao mesmo tempo, despedida e reencontro.
E talvez por isso tantas mulheres sintam que, junto com o nascimento de um filho, algo muito antigo também desperta. Ao cuidar de um bebê, uma mulher não está apenas no presente. Ela reencontra experiências fundamentais: o acolhimento, a confiança, a segurança de ser amparada, a alegria de ter pertencido.
O bebê convoca isso.
Não como lembrança organizada, mas como experiência viva. Por isso, às vezes, uma mãe segura seu filho…e encontra, silenciosamente, a criança que um dia foi. A forma como foi cuidada. O colo que conheceu. A presença com a qual aprendeu a contar. Ou a ausência que precisou aprender sobre a esperança. E, junto disso, o desejo profundo de oferecer a alguém um lugar mais seguro para existir.
E, de repente, o extraordinário passa a acontecer no meio do cotidiano.
Ao ouvir um “olha isso!” que devolve a lembrança de que ainda existem tesouros escondidos nas pequenas coisas. Ao perceber que um abraço no fim do dia pode reorganizar uma angústia que, um segundo antes, parecia inadiável. Ao notar que um filho não apenas cresce diante dos nossos olhos — ele também faz crescer partes de nós que pareciam esquecidas.
A maternidade tem essa força quase silenciosa: trazer à superfície aquilo que estava no fundo. Porque, ao cuidar de um filho, uma mãe também encontra novas formas de cuidar de si mesma. Ou, às vezes, antigas formas que podem ser reinventadas.
O corpo materno conhece isso profundamente:
Ele é casa e fronteira;
potência e vulnerabilidade;
presença e entrega.
Sustenta, nutre, protege — e aguenta: cansa, muda, dói.
E há uma beleza imensa nisso: a de oferecer o que se é para se tornar, por um tempo, a ponte do mundo para alguém.
Talvez por isso Winnicott seja tão importante aqui. Porque ele não fala da maternidade como ideal. Ele fala da maternidade como experiência humana:
Ambivalente.
Corporal.
Imperfeita.
Profundamente transformadora.
Alguém que vai nascendo junto. Que vai crescendo junto. Um crescimento que, às vezes, acontece para dentro. Para mais perto do essencial:
Mais presença.
Mais verdade.
Mais encontro.
Como se, ao cuidar de alguém tão pequeno, a vida fosse lentamente devolvendo proporção às coisas e revelando, enfim, sua grandeza.
Talvez o Dia das Mães também fale de uma das formas mais bonitas de amor: ao ajudar um filho a encontrar seus caminhos no mundo, uma mãe também vai, silenciosamente, reencontrando os seus.
