As chaves do mundo
- André Botinha

- 27 de abr.
- 4 min de leitura

Nesta semana, fui assistir à peça de Gregório Duvivier “O céu da língua”. O texto da peça brinca justamente com isso: nós nascemos rodeados por coisas cujos nomes não escolhemos; aprendemos os nomes do mundo tão cedo que esquecemos o esforço enorme que foi aprendê-los. E educar, em certo momento, aparece na peça desta forma: “dar a chave do mundo”.
Dar nome é uma das primeiras formas humanas de conhecer.
A palavra “nome” vem do latim nomen. Em muitas tradições antigas, saber o nome de alguém ou de alguma coisa não era uma conveniência. Era uma forma de aproximação, reconhecimento e responsabilidade. Nomear não era só rotular o mundo. Era começar a fazer parte dele.
Por isso talvez escolher o nome de um filho seja uma experiência tão intensa. Os pais não estão apenas decidindo o que será escrito em uma certidão. Estão tentando condensar, em poucas sílabas, uma esperança. Um desejo. Uma benção silenciosa. Às vezes um nome carrega um avô, uma divindade, uma música, um ídolo, uma paisagem, uma saudade.
Nomear um filho é dizer, antes que ele possa entender: “você foi esperado”. E uma parte importante da saúde emocional talvez comece aí: na percepção profunda de ter sido desejado, chamado e reconhecido.
Depois vêm as outras palavras.
“Mãe” e “pai” estão entre as palavras mais antigas da experiência humana, não apenas porque existem desde os primórdios, mas porque parecem nascer da própria linguagem do bebê. Em muitas línguas, essas palavras se formam por sons simples e repetidos: mama e papa nas línguas europeias; baba, em línguas como o turco, o persa e o árabe coloquial; appa, em línguas do sul da Índia e também no coreano.
Não é difícil imaginar a cena ancestral: um bebê balbucia, um adulto se emociona e responde. O bebê não sabe exatamente o que disse. O adulto escuta uma palavra. E, nesse encontro amoroso, nasce uma relação.
Os pais nomeiam a criança. Mas a criança também nomeia os pais.
Ninguém nasce pai do mesmo jeito que termina sendo pai. Ninguém nasce mãe do mesmo jeito que termina sendo mãe. Um bebê modifica a casa, as prioridades, a agenda, o corpo, o casamento, e a dimensão do medo e da esperança.
Mas modifica também a linguagem. De repente, adultos calejados passam a falar diminutivos, inventar músicas, repetir sons, criar histórias e narrar cada acontecimento do mundo como se estivessem assistindo à criação das coisas pela primeira vez.
E talvez estejam mesmo.
Porque a parentalidade é uma criação mútua. Os pais constituem o filho, mas o filho também constitui os pais. Há uma ressonância magnífica. Um responde ao outro. Um nomeia o outro. Um transforma o outro.
A palavra “amor” entra aqui como se fosse natural. Amor vem do latim amor, ligado ao verbo amare. Há quem aproxime essa raiz antiga de experiências de vínculo, amizade e desejo. E, ainda que as etimologias precisem sempre de cuidado, há uma beleza nessa vizinhança de sons e sentidos: amor, amigo, amamentar.
Como se a língua, sem precisar provar nada, tivesse deixado essas palavras morando perto umas das outras. Como se o amor, antes de virar ideia, tivesse sido alimento. Antes de virar promessa, tivesse sido entrega. Antes de virar palavra, tivesse sido corpo.
Talvez seja por isso que o amor dos primeiros anos não precise ser explicado. Ele precisa ser experimentado. No aconchego que vem na hora certa. Na alegria que permeia o reencontro. No olhar que confidencia ternura. Na mão que ampara. No cuidado que chega quando se precisa dele.
E então cresce o afeto.
Afeto vem do latim affectus, formado a partir de afficere: tocar, influenciar, produzir efeito em alguém. Afeto não é apenas ternura. É aquilo que nos afeta. Aquilo que nos move. Aquilo que nos altera.
Essa é uma palavra delicada, porque carrega uma verdade difícil: na parentalidade, nós afetamos nossos filhos profundamente. Para o bem, muitas vezes. Mas não apenas para o bem. Também chegamos cansados. Também erramos o tom. Também perdemos a linha. Também transmitimos inseguranças que nem sabíamos ter.
Porque se permitir ser tocado por alguém é manter aberta a porta por onde passam os sentimentos humanos: a alegria, o medo, a irritação, a ternura, o arrependimento, o espanto. Fechar essa porta talvez nos protegesse de alguns riscos, mas também nos afastaria da própria relação. Amar uma criança é aceitar que vínculo se constrói pela partilha do que somos.
E cuidado é outra palavra imensa que diz muito sobre nós.
Cuidar vem de uma história antiga ligada a pensar, considerar, prestar atenção. No português medieval, coidar podia significar pensar, imaginar, recordar. Aos poucos, cuidar passou a significar zelar, proteger, tomar para si a atenção sobre alguém.
Cuidar é manter o outro dentro do pensamento. É conhecê-lo pelas nuances, mesmo quando ainda não sabemos colocar em palavras. É perceber o sono diferente, o choro que mudou de timbre, a alegria que veio mais quente. Cuidado é o amor quando ele está atento.
E por isso cuidado também se aproxima de cura. Não apenas porque as palavras se encostam na história da língua, mas porque cura, no latim, significava justamente cuidado, solicitude, atenção. Curar, antes de ser apenas tratar um mal, era ocupar-se de alguém.
Nem todo cuidado cura no sentido médico. Mas todo cuidado verdadeiro tenta diminuir um desamparo. A palavra inglesa care também guarda uma história com a ideia de inquietação. Cuidar é se inquietar pelo bem de alguém. Porque quem cuida se importa.
E quem é cuidado, aos poucos, aprende a confiar.
Confiança vem de uma raiz ligada à fé. Confiar é acreditar. É entregar algo vulnerável à presença de alguém. Para uma criança, confiança não é conceito. É experiência vivida. Ela nasce quando o mundo, repetidas vezes, responde de modo suficientemente seguro. Quando a vida não precisa ser completamente controlada para valer a pena.
Talvez seja essa uma das maiores tarefas da parentalidade: oferecer à criança uma fé inicial na vida. Não como garantia de que nada será ruim. Mas como experiência cotidiana de que, quando doer, haverá uma presença.
Nome.
Mãe.
Pai.
Amor.
Afeto.
Cuidado.
Confiança.
São palavras antigas, que sustentam o invisível.
A infância começa antes da linguagem, mas não cresce fora dela. Cresce dentro das palavras que escuta, dos nomes que recebe, das histórias que organizam, das frases que acolhem. “Palavras não são más. Palavras não são quentes”, cantam os Titãs. Talvez não sejam mesmo. Porque há palavras que se dizem sem pensar. Mas há outras que, quando ditas por alguém que se preocupa, viram chão. E são elas que, como lembra o poeta, dão aos nossos filhos as chaves do mundo.




Comentários