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Os frutos não nascem do tronco

  • Foto do escritor: André Botinha
    André Botinha
  • 6 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

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No documentário Living in the Future’s Past (2018), o psicólogo Bruce Hood resume a longa jornada da humanidade de abandono do egocentrismo. Ele lembra que Galileu descobriu que a Terra não é o centro do universo; Darwin, que o homem é um animal entre outros; e Freud, que o controle é uma percepção, não uma realidade.


Muitas ações e decisões são frequentemente influenciadas por fatores que estão além do nosso controle consciente. Cada um, à sua maneira, contribuiu para desmontar uma peça da antiga ilusão de centralidade e paradigma. E, a cada perda, ganhamos consciência: deixamos de ser o centro do cosmos para nos tornarmos parte dele. Talvez, em escala individual, cada ser humano precise atravessar uma revolução semelhante — o processo de sair do centro e, ainda assim, sendo importante.

 

Desde o início da vida, o bebê vive sua própria “era geocêntrica”. No seu universo nascente, tudo acontece por causa dele e para ele. O leite, o calor, o olhar: tudo parece responder ao seu gesto, como se o mundo fosse criado por sua intenção a cada nova necessidade. Winnicott nos lembra de que o mundo é criado de novo por cada ser humano. Sabemos que o mundo estava lá antes do bebê, mas o bebê não sabe disso.

 

Essa ilusão é essencial: é o primeiro alicerce da existência. O bebê precisa acreditar que cria o que encontra para sentir que é real. A mãe suficientemente boa participa desse milagre silencioso: ela se adapta ao ritmo do bebê e apresenta o mundo como se fosse uma extensão dele. Assim, nasce a confiança primordial — a fé de que o mundo é um lugar habitável.

 

Com o tempo, essa adaptação começa a falhar, e isso também tem sua importância. A mãe, intuitivamente, dá início a uma desadaptação gradual, que permite ao bebê descobrir que o mundo não depende inteiramente da sua vontade. É nesse intervalo entre o desejo e o real que nasce o outro. A desilusão não é uma perda, mas uma conquista: é o primeiro ensaio da realidade compartilhada. Winnicott dizia que a saúde mental depende da capacidade de se desiludir sem desistir de amar. Aprender a lidar com essa frustração — nem total, nem traumática — é o que nos torna capazes de amar sem possuir.

 

Quando o bebê reconhece a mãe como uma pessoa real, com cansaço e limites, começa a nascer nele o que Winnicott chamou de capacidade de preocupação — a semente do amor humano. Ele passa a cuidar, a reparar, a desejar o bem do outro. Esse mesmo movimento reaparece em todas as relações verdadeiras, especialmente na parentalidade. É o que faz um pai ou uma mãe acordarem no meio da noite por um choro que não é o seu, mas é sentido como uma necessidade interna, uma dor própria. Amar é, de algum modo, sentir a dor do outro sem se perder de si.

 

A parentalidade é uma nova travessia dessa antiga jornada: o adulto que se descentra para sustentar a vida de outro ser. Winnicott descreveu esse estado com uma beleza ímpar, ao se referir à gestação: “Descobrem que se tornaram anfitriãs de um ser humano que decidiu alojar-se nelas e fazer um número sempre maior de exigências.”. Durante esse período, os pais vivem uma forma de autoexpressão pela identificação: abdicam, mas sendo criativos; perdem o centro, mas encontram sentido. É uma abdicação fértil, que nutre tanto quem cuida quanto quem é cuidado. Cuidar de seu bebê é reviver, em escala íntima, esse movimento milenar: deixar o trono da onipotência para encontrar-se com o outro.

 

E quando a onipotência se transforma em relação surge o espaço do brincar — o território entre o eu e o mundo, entre o controle e a entrega. Nesse espaço intermediário, o bebê experimenta sua criatividade primária, que um dia se expandirá como cultura, arte e pensamento. O adulto criativo é aquele que conserva algo dessa infância bem vivida: alguém capaz de habitar o mundo sem ser o centro dele, mas sem deixar de o reinventar a sua própria maneira.

 

No fundo, parte considerável do amadurecimento humano exige essa árdua tarefa e o longo aprendizado de sair do centro. Não para se tornar periférico, mas para pertencer. Não para se anular, mas para encontrar uma forma mais profunda de ser.  E, talvez, o amor seja exatamente isso: ser capaz de continuar sendo em presença de um outro que também é livre para existir.

 
 
 

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André Botinha de Sousa

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