top of page

Faça parte da nossa lista de email e nunca perca uma atualização!

O bebê e o tigre

  • Foto do escritor: André Botinha
    André Botinha
  • 1 de mar.
  • 5 min de leitura

Ouça o post

“O futuro dependerá daquilo que fazemos no presente.”

Mahatma Gandhi

 

Há um tipo específico de pensamento que costuma surgir às três da manhã. O bebê finalmente dormiu. A casa está silenciosa. E, ainda assim, a mente não está.

 

“E se algo acontecer enquanto eu durmo?”

“Como ele vai ser no futuro?”

“Será que estou deixando escapar algo que vai fazer  diferença lá na frente?”

 

O corpo está ali, cansado. Mas a mente se desloca alguns anos à frente. É intimamente humana a necessidade de projetar para o futuro.

 

Isso tem uma raíz profunda. Do ponto de vista evolutivo, sobreviver nunca foi uma tarefa simples. Imagine um pequeno grupo, atravessando uma planície aberta, há milhares de anos. O vento sopra baixo sobre a grama alta. Ao longe, um movimento sutil. Pode ser apenas o vento. Pode ser um predador.

 

Nesse cenário, antecipar não era paranoia, era sobrevivência. Preparar-se para fugir. Congelar para não ser visto. Aproximar-se do grupo. Buscar abrigo. Era melhor disparar o alarme cedo demais do que tarde demais. Valia mais a pena imaginar o pior cenário e se preparar do que subestimar e cometer um erro fatal.

 

Ao longo de milhares de gerações, cérebros que simulavam cenários futuros, especialmente cenários negativos, tiveram vantagem. A psicologia evolucionista descreve isso como um viés de negatividade: perdas e ameaças historicamente custaram mais caro do que ganhos equivalentes. É mais arriscado ignorar um tigre do que perder uma fruta. O sistema foi calibrado para valorizar o perigo. E basta ouvir o rádio por quinze minutos para perceber que essa inclinação não desapareceu.


Mas há algo ainda mais potente do que o medo. O amor. Somos seres moldados por vínculo. Aquilo que é mais importante para nós é também o que mais tememos perder. E poucas coisas, biologicamente, carregam tanto valor e vulnerabilidade quanto um filho. Um filho representa continuidade, investimento máximo, o nosso futuro. Mas também fragilidade extrema, dependência total, imprevisibilidade.

 

Não é estranho, portanto, que a mente parental fique em alerta. O problema é que o mesmo mecanismo que salvou nossos ancestrais pode nos arrebatar.

 

Hoje não há tigres à espreita diante da caverna. Mas há curvas de crescimento, comparações digitais, alertas de especialistas, manchetes inquietantes. A imaginação, que antes nos protegia de riscos físicos, agora se expande em múltiplos futuros possíveis, muitos deles improváveis, mas emocionalmente convincentes. O problema é que o futuro plural, cheio de hipóteses, probabilidades e cenários, só existe em um lugar: na nossa mente.

 

Eckhart Tolle, escritor e pensador contemporâneo sobre consciência e presença, observa que grande parte do sofrimento humano nasce dessa identificação constante com o pensamento. Vivemos antecipando, resolvendo mentalmente problemas que ainda não aconteceram, ensaiando falas, prevendo erros. É um exercício sofisticado — e exaustivo.

 

Mas há um paradoxo delicado.

 

Quanto mais buscamos no futuro o momento em que finalmente estaremos tranquilos — “quando ele dormir melhor”, “quando essa fase passar”, “quando eu me sentir mais seguro” — mais perdemos o único lugar onde a vida acontece: agora.

 

É irônico, mas quando deixamos de exigir que o futuro nos faça felizes, talvez já nos sintamos mais felizes.

 

Estudos clássicos sobre prospecção humana, como os de Schacter, mostram que usamos os mesmos circuitos cerebrais para lembrar do passado e imaginar o futuro. Essas redes, que sustentam nossa capacidade de “viajar no tempo” mentalmente, são um dos grandes saltos evolutivos da nossa espécie. Elas sustentam planejamento, cooperação e cultura.

 

Mas, quando acoplada ao sistema de ameaça, essa mesma habilidade se transforma em preocupação persecutória. Na parentalidade inicial, o cenário é fértil para isso: alto valor, alta vulnerabilidade, alta incerteza.

 

À princípio, não há distorção, é adaptação. Mas adaptação constante cobra um preço. E o mundo que selecionou esse sistema não é mais como o mundo atual. Nossos ancestrais enfrentavam ameaças episódicas. Nós vivemos sob alertas contínuos — notificações, notícias, comparações, métricas...o sistema de vigilância raramente descansa.

 

É aqui que entra algo aparentemente simples — e radical: treinar o retorno.

 

É curioso que, nesse cenário, o maior gatilho da ansiedade seja também o maior professor. O bebê não vive no futuro. Ele vive no ritmo do corpo. No som da própria respiração. No calor da pele. Na canção que o acalma. No olhar que se aproxima. No toque que o aconchega. Ele experimento o agora.

 

Atenção plena não é esvaziar a mente. Não é eliminar pensamento. É perceber quando a mente vagou e, com gentileza, trazê-la de volta. À respiração. Ao corpo. Ao toque aquecido de um bebê adormecido no colo.

 

Meta-análises recentes sobre mindfulness (como revisões de conectividade cerebral publicadas na última década) mostram que o treino de atenção plena altera a conectividade entre redes cerebrais associadas à autorreferência e à regulação emocional. Traduzindo: ficamos menos capturados pela narrativa e mais capazes de escolher onde colocar a atenção.

 

E há uma segunda experiência que parece operar de modo complementar: o awe, que pode ser traduzido como o encantamento.

 

Pesquisas sobre encantamento, incluindo estudos de neuroimagem como os de van Elk, indicam que momentos de admiração profunda reduzem a atividade em regiões cerebrais associadas ao foco excessivo em si mesmo. Quando somos tomados por um pôr do sol, por uma música de que gostamos, ou mesmo pelo sorriso delicioso de um bebê, a narrativa interna diminui. O tempo desacelera.

 

Curiosamente, uma das fontes mais frequentes de encantamento relatadas em estudos não são eventos grandiosos, mas gestos simples de beleza moral: cuidado, coragem e ternura.

 

Talvez seja por isso que tantos pais descrevem, em meio ao cansaço, instantes quase suspensos: a primeira gargalhada, o modo como os dedos pequenos se fecham ao redor da mão adulta, o silêncio compartilhado após acalmar um choro.

 

Nesses momentos, não há futuro. Há presença. E talvez a estabilidade que buscamos não esteja em controlar o que virá, mas em habitar com mais inteireza o que já está acontecendo.

 

Dot Fisher-Smith, uma artista de 95 anos entrevistada pelo projeto Reflections of Life, foi perguntada sobre o que ainda a movia depois de quase um século de existência. Ela respondeu com simplicidade: “Eu não quero apenas ter visitado este mundo. Quero ser como uma criança maravilhada e encantada”. A infância passa. Isso é inevitável. Mas há uma diferença entre apenas atravessá-la e permitir que ela continue nos acompanhando.

 

A mente seguirá criando futuros possíveis. Ela sempre fez isso. Mas talvez a maturidade não esteja em silenciá-la, e sim em não permitir que ela nos roube o milagre discreto que repousa no agora. Nossos ancestrais precisaram antecipar para sobreviver. Nós precisamos lembrar para viver. Entre o que pode acontecer e o que já aconteceu, há uma escolha sábia a ser feita. Porque o tempo de um bebê não espera pelo futuro prometido pela nossa mente.

 

 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
Marca-Fundo-Azul.png

André Botinha de Sousa

CRM-MG 55.776

RQE 33.543

REDES SOCIAIS

  • Whatsapp
  • Instagram
bottom of page