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A grama interior é a mais verde

  • Foto do escritor: André Botinha
    André Botinha
  • há 3 dias
  • 4 min de leitura

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"Merece de a gente aproveitar

o que vem e que se pode,

o bom da vida é só de chuvisco."

 

Guimarães Rosa


Se você tivesse que escolher entre duas estratégias para tomar decisões na vida, qual escolheria?

 

Buscar sempre a melhor opção possível — avaliando cuidadosamente todas as alternativas disponíveis — ou escolher algo suficientemente bom e seguir em frente?

 

À primeira vista, a primeira opção parece a mais sensata. Afinal, quem não gostaria de fazer sempre a melhor escolha?

 

A maior parte da história humana foi marcada mais pela escassez do que pela diversidade. Mas um traço marcante da vida contemporânea é que nunca tivemos tantas opções diante de nós. Escolhemos entre dezenas de estilos de vida, opiniões, marcas e caminhos possíveis. Essa abundância parece um privilégio e uma dádiva dos tempos modernos.

 

Mas algo curioso acontece quando a variedade ultrapassa certos limites. Aquilo que parecia liberdade pode começar a se transformar em fardo. Escolher exige bastante energia. Comparar exige tempo. E quanto mais alternativas se acumulam diante de nós, maior pode se tornar a sensação de que talvez exista uma alternativa melhor logo adiante.

 

Esse fenômeno aparece em um estudo conduzido por Sheena Iyengar e Mark Lepper. Em um supermercado, os pesquisadores montaram duas mesas de degustação de geleias. Em uma delas havia 24 sabores diferentes; na outra, apenas seis. A mesa mais abundante atraiu muito mais curiosidade — as pessoas pararam mais, observaram e experimentaram mais. Mas houve um desfecho interessante: quem encontrou apenas seis opções teve cerca de dez vezes mais chance de levar uma geleia para casa.

 

A abundância seduz o olhar, mas nem sempre facilita a decisão. E, nesse processo, a intenção permanece, enquanto a escolha acaba ficando em cima da mesa.

 

Nos anos seguintes, outras pesquisas passaram a investigar não apenas quantas opções temos diante de nós, mas também como lidamos com elas. O psicólogo Barry Schwartz descreveu dois estilos possíveis de decisão. Em alguns momentos da vida buscamos a melhor opção disponível: pesquisamos, comparamos alternativas e analisamos detalhes antes de decidir.

Em outros, escolhemos algo que atende bem aos nossos critérios e seguimos adiante, sem a necessidade de examinar todas as possibilidades existentes.

 

Em decisões importantes, esse impulso de maximizar é natural. Se alguém vai comprar uma casa com as economias acumuladas ao longo de décadas, ou escolher a escola onde um filho passará boa parte da infância, é esperado que invista tempo, atenção e energia tentando fazer uma ótima escolha.

 

O problema aparece quando quase tudo na vida começa a exigir esse mesmo nível de análise. Em um mundo repleto de alternativas, comparações e informações, decisões cotidianas podem ganhar o peso de escolhas decisivas.

 

E, nesse cenário, quanto mais tentamos garantir a decisão perfeita, maior pode se tornar a ansiedade durante o processo e mais chance de surgir a sombra da pergunta: será que havia algo ainda melhor?

 

Curiosamente, essa intuição não é nova. Há mais de dois mil anos, a filosofia grega já percebia que a vida pode se tornar mais frágil quando depende de condições cada vez mais complexas para que o bem-estar apareça.

 

Epicuro, por exemplo, sugeria que a sabedoria da vida estava em organizá-la de modo que a felicidade não dependesse sempre de circunstâncias extraordinárias porque quando isso acontece, a vida comum corre o risco de parecer sempre insuficiente.

 

Isso aparece também na parentalidade. Hoje existem muitas formas de abordar temas importantes da infância — sono, alimentação, estímulos, rotina e escola. Essa diversidade é, em muitos aspectos, uma riqueza do nosso tempo. Mas, ao mesmo tempo, ela também pode produzir um efeito contraintuitivo: quanto mais caminhos aparecem, mais difícil pode se tornar escolher um e simplesmente caminhar com ele.

 

Talvez por isso muitos pais descubram, com o tempo, a importância de encontrar uma tribo — pessoas que compartilham valores semelhantes sobre o que importa na vida e na criação dos filhos. Não se trata de seguir um manual coletivo, mas de algo mais simples e humano: quando pertencemos a um grupo que enxerga o mundo de forma parecida, muitas decisões deixam de exigir comparação eterna. O caminho não precisa ser o melhor entre todos os possíveis — apenas um que nos preencha de significado dentro da vida que escolhemos viver.

 

A chegada de um filho costuma produzir uma mudança silenciosa de perspectiva. A parentalidade não simplifica necessariamente os dias — muitas vezes acontece o contrário. Mas ela tem uma capacidade curiosa de clarear prioridades.

 

Quando Bernardo tinha pouco mais de um ano, fiz um exercício sugerido por Tim Ferriss em seu livro Trabalhe 4 horas por semana. Listei todas as atividades que faziam parte da minha vida naquele momento. Foram doze. Depois, dividi a lista em duas colunas: “ainda faz sentido” e “atividades a eliminar”.

 

Para minha surpresa, cinco delas já não faziam mais sentido para mim. Quase metade das coisas que ocupavam minha agenda continuava ali apenas por falta de reflexão.

 

Quando nos tornamos pais, a vida nos convida a esse tipo de revisão ponderada. Não necessariamente para fazer menos, mas para perceber com mais nitidez o que realmente importa.

 

Entre as demandas concretas de cuidar de um novo ser tão amado e as atividades que já faziam parte da nossa vida, algo acontece diante do desafio de fazer tudo caber nas 24 horas do dia: muitas coisas perdem urgência, enquanto outras ganham centralidade.

 

Nesse sentido, uma vida mais simples não prejudica a satisfação com a vida. Ao contrário, ela apenas diminui o preço de encontrá-la.

 

E, às vezes, basta isso para que a vida volte a caber melhor dentro dos limites dos nossos dias.

 
 
 

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André Botinha de Sousa

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