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Contigo em consigo estar comigo

  • Foto do escritor: André Botinha
    André Botinha
  • 8 de mar.
  • 4 min de leitura

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“Que minha solidão me sirva de companhia.

Que eu tenha a coragem de me enfrentar.

Que eu saiba ficar com o nada

e mesmo assim me sentir

como se estivesse plena de tudo.”

 Clarice Lispector


Toda criança passa por momentos em que parece desafiar o mundo inteiro.


Ela não aceita a roupa que foi escolhida. Reclama que o queijo foi colocado do lado errado do pão. Insiste em carregar a própria mochila mesmo quando já estamos atrasados para a escola. Quando tentamos ajudar, protesta: “Eu que faço!”


Muitas vezes, esses momentos podem parecer apenas desobediência ou provocação. Mas valem uma pergunta: e se parte dessa rebeldia fosse um sinal importante de desenvolvimento?


Winnicott observou que o desenvolvimento emocional saudável depende de algo muito delicado: a possibilidade de a criança agir a partir de um gesto que sente como seu.


Esse gesto espontâneo é a expressão do que ele chamou de verdadeiro self. Em termos simples, o verdadeiro self é o núcleo da experiência de autenticidade — a sensação de que a própria vida está sendo vivida a partir de dentro. Ele nasce muito cedo, quando o ambiente, especialmente os pais e as outras pessoas que cuidam, respondem de forma sensível aos gestos do bebê.


A partir dessas experiências, algo silencioso começa a se formar: a sensação de que aquilo que faço vem de mim. É assim que começa a nascer uma parte fundamental da experiência de si mesmo.


Nesse contexto, a oposição ganha um significado. Em muitos momentos do desenvolvimento, dizer “não” pode ser justamente o modo pelo qual a criança protege a continuidade do próprio ser. Paradoxalmente, se encarada assim, a rebeldia pode ser lida como um sinal de vitalidade.


Crescer implica um processo inevitável de diferenciação.


No início da vida, o bebê vive numa dependência quase total do ambiente que o cuida. Aos poucos, ele descobre algo, em certa medida, desconcertante: o mundo não é extensão de si mesmo. O outro possui desejos próprios. Nem tudo acontece quando e como ele quer.


É nesse terreno que surge uma tensão fundamental. A criança precisa afirmar sua singularidade justamente diante das pessoas de quem mais depende. A criança precisa afirmar sua singularidade justamente diante das pessoas de quem mais depende. Não é raro ouvir comentários como: “Nossa, ele estava ótimo até você chegar.” Em outras palavras, ela precisa descobrir que pode existir como alguém próprio diante de seus vínculos mais seguros — aqueles que têm mais condição de resistir a essa diferenciação.


Mas essa diferenciação não acontece no vazio.


Winnicott descreveu outro aspecto essencial desse processo em um texto clássico chamado “A capacidade de estar só”. A ideia é surpreendente: a capacidade de estar só não é o oposto da relação. Ela nasce dentro e por causa da relação. Segundo ele, a verdadeira capacidade de estar só é, na realidade, a capacidade de estar só na presença de alguém.


Imagine uma criança brincando no chão enquanto um cuidador está por perto, lendo ou organizando algo. O adulto não invade a brincadeira, não dirige cada gesto, mas permanece disponível.


Nesse cenário, duas experiências acontecem ao mesmo tempo. De um lado, a criança sente a presença confiável do outro. De outro, ela pode existir no próprio mundo interno: imaginar, experimentar e brincar.


Com o tempo, essa experiência se internaliza. A criança passa a carregar dentro de si uma sensação de sustentação. E então pode estar só sem se sentir só.


Rebeldia e capacidade de estar só fazem parte do mesmo processo de amadurecimento.

A transgressão marca o momento em que a criança começa a afirmar: “eu não sou apenas aquilo que o outro espera de mim.”


A capacidade de estar só marca outro passo igualmente fundamental: “posso existir como eu mesmo porque sou capaz de não perder o vínculo com o outro.”


No pensamento de Winnicott, maturidade emocional não significa independência absoluta. Significa algo mais complexo: a capacidade de viver simultaneamente ligado ao outro e fiel a si mesmo.


Curiosamente, a ciência contemporânea da memória ajuda a iluminar esse processo. Pesquisas mostram que cada pessoa constrói, ao longo da vida, uma espécie de narrativa interior que organiza suas lembranças, seus valores e suas expectativas.


Essa história não nasce apenas das nossas próprias experiências. Ela também se forma nas conversas familiares, nas histórias que ouvimos sobre quem fomos e sobre quem somos. Carregamos dentro de nós episódios da nossa infância, mas também memórias que pertencem aos nossos pais, aos nossos avós e até a pessoas queridas que nunca conhecemos em vida.


Essas narrativas funcionam como raízes invisíveis.


O amadurecimento envolve um movimento profundo de reconhecer essas histórias, mas também diferenciá-las da própria experiência. É um trabalho de aurífice o de esculpir a partir do que veio antes, dando continuidade à história com a própria voz.


Talvez por isso esta metáfora simples ajude a ilustrar o movimento:


A vida pode ser comparada a uma árvore — as raízes representam o ambiente que nos sustentou: as pessoas que cuidaram de nós, as primeiras experiências de pertencimento, as histórias que nos foram contadas sobre quem somos.


O tronco representa quem nos tornamos. Ele não existe sem as raízes, mas também não é idêntico a elas. O tronco cresce a partir das raízes, mas em direção ao próprio céu.


A copa representa as relações que construímos ao longo da vida — os lugares onde nossa história continua a se ramificar.


E os frutos são aquilo que confiamos ao mundo: nossos gestos, nossas criações e, também, nossos próprios filhos.


Crescer, envolve diferenciar-se, expandir, mas sem perder as raízes. É transformar herança em autoria. E descobrir que, nesse processo, algo muito precioso se torna possível:


Contigo eu consigo estar comigo. Porque uma presença nos sustentou até que pudéssemos nos sustentar. Mesmo quando essa presença já não está ao nosso alcance, continuamos a habitá-la — e ela, a nos habitar. E quando isso acontece, mesmo na solidão, não estamos sós.


 
 
 

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André Botinha de Sousa

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