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O que mais importa é ser feliz?

  • Foto do escritor: André Botinha
    André Botinha
  • 2 de fev.
  • 4 min de leitura

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“Melhor do que ser feliz é viver”

Vinicius de Moraes

 

Há dias em que o cansaço chega antes da noite. A casa ainda está em movimento, as demandas continuam e a sensação é de estar esgotado — mesmo fazendo tudo o que é possível. Ainda assim, algo insiste: a impressão de que isso não deveria estar acontecendo. “Se eu amo meus filhos, por que isso pesa tanto?”. “Se era para ser feliz, por que estou assim?”. Como se a parentalidade tivesse prometido outra coisa.

 

Foi ao escutar uma palestra da jornalista e mãe Jennifer Senior que essa sensação ganhou contorno. Em “Para os pais, a felicidade é uma barra muito alta” (tradução livre), ela propõe uma ideia simples, mas profunda: talvez o problema não esteja na experiência de criar filhos, mas na régua que muitas vezes usamos para avaliá-la. Exigir felicidade constante da parentalidade pode ser uma expectativa irreal — e injusta com quem está na lida cotidiana.

 

A ciência ajuda a compreender por que essas perguntas surgem com tanta força. Estudos clássicos em psicologia do bem-estar, conduzidos por Daniel Kahneman e Katherine Nelson, mostram que o cuidado cotidiano com filhos está associado a menos prazer imediato quando comparado a outras atividades da vida adulta. No dia a dia, pais relatam mais interrupções, mais cansaço e mais tensão emocional. O cotidiano se torna mais exigente, menos previsível e menos confortável.

 

Há também um componente cultural nesse sentimento. A comparação constante, amplificada pelas redes sociais, vai desenhando a imagem de pais que deveriam estar felizes, bem-sucedidos profissionalmente e emocionalmente equilibrados — e que, apesar de tudo isso, ainda transformariam a criação dos filhos numa experiência continuamente gratificante. No passado, havia poucos manuais sobre como criar filhos. Hoje, há uma avalanche de informação prometendo crianças mais inteligentes, mais resilientes, mais felizes e mais preparadas. Esse excesso, muitas vezes, não oferece apoio, mas produz um estado difuso de ansiedade.


Essa inquietação cresce quando olhamos adiante. Pais já não sabem para que mundo estão preparando seus filhos. O cenário muda rápido demais e o futuro passou a se assemelhar mais a um exercício de ficção científica do que a uma projeção confiável. Aos poucos, surge um movimento quase automático: oferecer mais, antecipar mais e preencher os espaços possíveis. A infância passa a acumular atividades, estímulos e expectativas. E o cuidado começa a se confundir com um esforço permanente de não falhar.


Isso ajuda a entender por que a sensação de inadequação aparece com tanta frequência. Se usamos a felicidade instantânea e o desempenho como réguas principais, a parentalidade pode parecer insuficiente. Mas o dado mais interessante é outro — e costuma ser esquecido quando falamos de parentalidade.


Esses mesmos estudos mostram que, apesar da queda no prazer imediato, pais tendem a relatar mais sentido, mais propósito e uma sensação ampliada de que a vida importa. Como se a experiência se tornasse mais pesada — mas, ao mesmo tempo, mais densa. Menos leve, mas muito mais significativa.


Talvez aqui esteja uma saída que opere em outra dimensão do tempo — menos imediata e menos fugaz. Há experiências humanas cujo valor não se mede pelo conforto que produzem, mas pelo sentido que inauguram. O foco deixa de ser apenas o que sentimos e passa a incluir aquilo de que cuidamos.


O cuidado com um filho parece pertencer a essa categoria. Ela, muitas vezes, não se oferece como sutileza, mas como compromisso. Não se apresenta como prazer permanente, mas como algo que pede presença — mesmo quando não há promessa de recompensa. Talvez por isso a parentalidade confronte tão diretamente as expectativas que criamos.


É nesse ponto que a experiência começa a ganhar outra espessura. O valor do que se vive aparece como uma sensação, às vezes silenciosa, de que estamos implicados em algo maior do que nós. Algo que reorganiza prioridades, desloca o centro da vida e amplia o campo do que consideramos essencial. Talvez seja por isso que tantas pessoas descrevam a criação dos filhos como uma das experiências mais difíceis — e, paradoxalmente, mais importantes — de suas vidas.


É justamente essa mudança de eixo que Jennifer Senior nomeia. Ao observar dados e escutar pais ao longo de anos, ela sugere que algumas vivências se justificam pelo sentido que sustentam.


Em vez de perguntar se ter filhos deveria nos fazer felizes, talvez seja mais honesto perguntar se ter filhos dá sentido à nossa vida. Essa troca não elimina o cansaço. Não torna os dias mais leves nem resolve as noites de insônia. Mas ela faz algo muito importante: retira o fardo de não se estar feliz o tempo todo. E, ao fazer isso, desloca o foco da felicidade efêmera para algo mais profundo e mais estável.


Talvez tenhamos esperado demais da felicidade — e esquecido de outras bússolas mais antigas: filhos que aprendem a conviver, a cuidar, a trabalhar e a amar. Que reconhecem que a falha, a tristeza e as dificuldades são parte do pêndulo que produz o equilíbrio da vida. Pessoas capazes de se sentirem bem com quem são — não porque tudo foi leve, mas porque foram sustentadas em vínculos reais que fazem a vida valer a pena.


Cuidado, presença, responsabilidade e compromisso aparecem, então, não como obstáculos à felicidade, mas como guias mais humanos e mais duradouros. Eles não prometem euforia, mas oferecem algo talvez ainda mais raro: gratidão com o momento presente.


Ao final, a conclusão de Jennifer Senior é menos uma resposta e mais um convite à honestidade. A parentalidade não precisa ser justificada pela felicidade que produz. Ela pode ser sustentada pelo sentido que constrói. E talvez precisemos ser mais gentis com os pais — inclusive conosco — ao reconhecer que amar, cuidar e permanecer implicado nem sempre é confortável, mas quase sempre é profundamente significativo.

 

 
 
 

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André Botinha de Sousa

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