O que aprendemos antes de nascer: uma escuta silenciosa no ventre do mundo
- André Botinha

- 23 de nov. de 2025
- 4 min de leitura

No ritmo acelerado da vida contemporânea, é fácil esquecermos que o aprendizado não começa com o primeiro passo ou palavra. Segundo a jornalista científica Annie Murphy Paul, na verdade, começamos a aprender muito antes de nascer — ainda no útero. Essa ideia, ao mesmo tempo poética e científica, convida-nos a reconsiderar muito do que acreditamos saber sobre o início da vida.
Imagine um bebê ainda no útero, flutuando em sua bolsa de líquido amniótico, num mundo de sombras, sons abafados e pulsações regulares. À primeira vista, pareceria um estado de espera, uma espécie de incubação passiva até o momento do nascimento. Mas o que Annie nos mostra, com exemplos concretos e linguagem acessível, é que esse bebê já está atento, ativo e absorvendo o mundo.
A primeira escola: o útero
O ventre materno, que simboliza proteção e acolhimento, também é um laboratório de percepções, onde sons, sabores, emoções e até padrões de linguagem são apreendidos. Um dos exemplos mais fascinantes é o da linguagem. Pesquisas mostram que recém-nascidos demonstram preferência pela língua falada durante a gestação. Não compreendem o sentido — mas reconhecem a melodia, os ritmos, a respiração de quem fala. É um aprendizado ainda sem palavras, mas já com afeto.
Também os sabores fazem parte dessa experiência pré-natal. O líquido amniótico muda de sabor conforme o que sua mãe come. Alho, anis, cenoura — todos esses aromas atravessam a barreira placentária. O bebê “degusta” a dieta materna e, quando cresce, é possível que isso contribua para a aceitação mais fácil desses alimentos. O paladar da infância começa, portanto, ainda envolto pelo útero — como uma primeira forma de familiaridade com o mundo que os aguarda.
Emoções que nutrem
Mas não são apenas os sentidos que estão em jogo. As emoções positivas da mãe também influenciam o bebê. A gestação é uma ponte viva entre dois corpos. Quando a mãe sorri ao sentir um movimento, quando respira mais leve, quando se acalma ao cantar — algo dessa experiência chega ao bebê. A ciência começa a explicar o que a poesia já intuía: o corpo materno traduz emoções em linguagem biológica.
A pesquisadora Nils Bergman, em sua TED Talk sobre o contato pele a pele entre mães e bebês, reforça essa ideia ao mostrar como o vínculo emocional afetuoso favorece não só o vínculo, mas o cérebro em formação.
Assim, o bem-estar da gestante é mais do que autocuidado: é uma mensagem para o bebê. Uma mãe que canta, que sorri ao sentir os primeiros chutes, que conversa com o pequeno habitante de seu ventre está, sem saber, alfabetizando o coração de seu filho para o mundo que o espera.
O feto como aprendiz ativo
A proposta de Annie Murphy Paul rompe com a noção do feto como uma “tábula rasa”, passiva. Em vez disso, ela pinta o retrato de um ser humano em formação, que já responde ao mundo ao redor com inteligência. O bebê escuta, memoriza, prefere e sente. O bebê aprende com o corpo da mãe não apenas a se desenvolver, mas a viver em relação — que idioma falar, como responder ao ambiente, como lidar com o que o desafia.
Essa perspectiva tem implicações poderosas. Primeiro, reforça a importância desse momento encantador de nove meses que precede o nascimento. A gestação não é apenas a preparação biológica para a vida — é também a construção silenciosa de um território emocional e cultural. Segundo, amplia nosso conceito de educação. Educar começa antes da fala, antes do toque, antes até do nascimento. Começa na escuta atenta de um mundo em parte velado.
Aprender antes de nascer é aprender a ser
Ao longo de sua palestra, Annie nos leva pela mão — com ciência, mas também com sensibilidade — a enxergar o feto como um pequeno explorador. O que ele ouve, sente e experimenta molda não só suas preferências, mas sua identidade inicial. Aprender antes de nascer é, em última instância, começar a ser.
E é nesse gesto de acolhimento que começa uma outra aprendizagem, silenciosa e profunda: a do cuidado. Quando um bebê percebe, ainda dentro do útero, que é ouvido, tocado, acalmado, ele não apenas aprende a confiar no mundo — ele guarda em si uma memória viva de como se cuida de alguém.
É por isso que, ao se tornarem mães e pais, muitos descobrem em si um saber que não foi ensinado em livros ou cursos. É um saber que brota de dentro — talvez da voz que acalmava, do colo que acolhia, das pequenas delicadezas que marcaram sua própria história. E mesmo quem não teve uma trajetória perfeita — afinal, ninguém tem — pode descobrir em si novos modos de oferecer até mesmo aquilo que talvez tenha faltado.
A mensagem que Annie deixa, mesmo que de forma indireta, é uma de esperança e reconexão: se aprendemos tanto antes de nascer, também seguimos aprendendo durante toda a vida — inclusive sobre como amar, proteger e ensinar. A capacidade de cuidar não nasce pronta, mas é construída com gestos, com presença e com afeto — e começa antes mesmo do choro inaugural da vida.
Para mães e pais que hoje carregam seus filhos nos braços ou no ventre, fica o convite para confiarem em si. Uma parte essencial do que seu filho precisa já está em você.




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