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Lá do alto do Ano: um salto de esperança

  • Foto do escritor: André Botinha
    André Botinha
  • 22 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

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Há algo no fim do ano que nos convida a olhar do alto, como se estivéssemos num mirante da vida. Como se, ao encerrar um ciclo, fôssemos conduzidos a um ponto mais alto, de onde conseguimos ver o que foi vivido com mais delicadeza. Acredito que por isso o Natal e a passagem de ano falem tanto de nascimento, de recomeço e de esperança — não como ideia abstrata, mas como experiência sentida.

 

Mário Quintana escreveu que, lá no alto do décimo segundo andar do Ano, vive uma louca chamada Esperança. Uma esperança que se atira quando todas as sirenes tocam, e que, milagrosamente, cai inteira no chão — outra vez criança. Há algo de profundamente verdadeiro nessa imagem. A esperança não nasce pronta, nem infalível. Ela se lança e se sustenta quando encontra um solo confiável, onde pode brotar com toda a sua imponência, justamente na figura de uma menina. E, às vésperas do renascimento do ano, voltamos os olhos para o nascimento da vida.

 

Donald Winnicott escreveu que existe algo em ter um bebê que altera os pais. E não se trata de uma mudança superficial. Um filho não chega em um ambiente pronto; o ambiente se transforma porque ele chegou. De forma visceral, ele convoca o olhar atento, a mão que sustenta e o toque que reconhece. Convoca um cuidado que vai além da técnica — um cuidado que dá forma ao corpo como lugar habitável, onde é possível estar.

 

O bebê nos demanda sem palavras, mas com intenção. E é nessa demanda silenciosa que ele extrai de nós a delicadeza, a responsividade e o gesto cuidador. Winnicott dizia que o bebê nos lisonjeia com a esperança de que seremos capazes de nos identificarmos com ele. Não por esforço deliberado, mas por um reconhecimento íntimo: algo em nós sabe responder.

 

Assim, pais e bebês criam juntos um campo onde gesto e acolhimento se entrelaçam. O ambiente confiável não é uma estrutura prévia, nem um ideal a ser alcançado. Ele nasce do encontro. É um espaço que se inaugura quando alguém é esperado, sentido e acolhido. Por isso, podemos dizer: o bebê não apenas depende de um ambiente confiável — ele o inaugura.

 

Esse movimento começa antes mesmo do nascimento. Já na gravidez, o bebê passa a existir não apenas biologicamente, mas psiquicamente — como presença imaginada, sentida e antecipada. Há um campo relacional que se forma aos poucos. Winnicott observou que esses nove meses oferecem tempo suficiente para uma transformação profunda na mulher, um estado em que, em grande parte, ela é o bebê, e o bebê é ela.

 

A mãe entra, então, num estado particular de sensibilidade. Um estado natural e extraordinário, em que ela se torna permeável à vida que abriga. Trata-se de uma regressão saudável, que permite sentir o mundo como o bebê o sente. Não é algo que se ensina, nem que se exige. Mas, sim, um modo de viver o corpo e a mente como morada transitória de alguém que entra nos sonhos, nos pensamentos, na vida emocional dos futuros pais.

 

Nesse processo, algo luminoso se desloca. A futura mãe passa a reconhecer-se como alguém merecedora de cuidado, respeito e passagem. À medida que a gestação avança, cresce o desejo de dedicar-se inteiramente àquele que vai nascer. E, quando o bebê está pronto para chegar, a mãe também já está preparada para reconhecê-lo e atender às suas necessidades mais essenciais.

 

O nascimento catalisa essa transformação. Ali está o bebê — agora reconhecido por todos como um indivíduo. Desponta uma forma simples e profunda de amor, quase física. Pela dedicação cotidiana, a mãe comunica silenciosamente: “sou confiável porque me preocupo e quero providenciar o que você precisa”.

 

Quando essa adaptação acontece, o bebê experimenta algo decisivo: segurança. E da segurança nasce a confiança. Não a confiança ingênua, mas a expectativa profunda de que o mundo pode responder à altura.

 

É nesse solo de confiabilidade que algo ainda mais precioso se forma: a esperança. Um milhar de vezes, o bebê sentiu que podia criar o que desejava — e que o mundo, de algum modo, acolhia esse gesto. Assim nasce a convicção de que existe uma ligação viva entre a realidade interior e a realidade exterior. Entre o que se sonha e o que se encontra.


Ao nos despedirmos deste ano, preciso agradecer às famílias que caminharam comigo neste ano especial, em que o consultório completou seus dez anos. Apesar de estar saindo de sua infância em termos de idade, é graças a vocês que ele continua “miraculosamente incólume na calçada, outra vez criança…” nas palavras de Quintana.

 

Que o novo ano nos encontre assim: suficientemente seguros para confiar e serenos o bastante para estar com ela: devagarinho, como pediu o poeta, para não nos esquecermos: ES-PE-RAN-ÇA.

 
 
 

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André Botinha de Sousa

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