top of page

Faça parte da nossa lista de email e nunca perca uma atualização!

Do Cuidado à Esperança: o caminho que sustenta a infância

  • Foto do escritor: André Botinha
    André Botinha
  • 18 de jan.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 19 de jan.


Ouça o post

“Uma vez, aliás, agora é que me lembro, uma esperança bem menor que esta pousara no meu braço. Não senti nada, de tão leve que era, foi só visualmente que tomei consciência de sua presença. Encabulei com a delicadeza. Eu não mexia o braço e pensei: "e essa agora? Que devo fazer?" Em verdade nada fiz. Fiquei extremamente quieta como se uma flor tivesse nascido em mim.


Clarice Lispector


Winnicott, algumas vezes, nos dá permissão para organizar suas ideias com uma modesta contribuição pessoal. Ele é acessível, escreve a partir da sua vivência clínica, da imagem viva, da experiência cotidiana. Ainda assim, quando colocamos lado a lado alguns de seus textos, torna-se possível reconhecer um caminho silencioso, que vai do sentimento de segurança à confiança e, mais adiante, à esperança.


Esse caminho começa muito antes das palavras.


O sentimento de segurança nasce no cuidado suficientemente bom, naquele ambiente inicial que protege o bebê das angústias iniciais e lhe permite viver algo fundamental: a continuidade do existir. Não se trata de ausência de frustração, mas da experiência repetida de que o mundo sustenta, acolhe e permite a reparação. É dessa base que o eu começa a se constituir de forma silenciosa. A confiança não surge pela ausência de falhas, mas porque, mesmo quando algo escapa, a recuperação acontece.


Winnicott insiste: a segurança não é ensinada. Ela é vivida. A mãe — ou quem ocupa essa função — não comunica confiabilidade por discursos, mas por gestos repetidos de adaptação, presença e preocupação. O bebê aprende algo essencial sem saber que aprende: que existe alguém que se importa, que providencia, que retorna. E dessa experiência encarnada nasce uma crença primitiva na confiabilidade do mundo.


Essa confiança, no entanto, não é ingênua. Ela se constrói justamente porque o ambiente tropeça sem colapsar. A frustração é inevitável; a decepção por alguém confiável, não. Aos poucos, o bebê passa a carregar consigo a expectativa de que o ambiente pode ser ferido, sobrevivendo a isso — e de que os vínculos podem ser reencontrados e permanecem vivos.

É essa confiança acumulada que torna possível algo decisivo: o brincar.


Em O brincar e a realidade, Winnicott mostra que a imaginação só floresce quando há confiança suficiente. Confiar é o que permite imaginar, criar imagens, experimentar o mundo de forma viva. A confiança, portanto, não sustenta apenas o vínculo, mas algo mais essencial: a sensação de que se pode brincar — e, brincando, a vida começa a fazer sentido.

 

Mas o desenvolvimento não segue em linha reta. Há falhas, rupturas e lacunas. E é justamente aí que Winnicott nos oferece uma das ideias mais delicadas de sua obra: a esperança.


Para ele, a esperança não é otimismo, nem expectativa positiva em relação ao futuro. Esperança é um gesto arriscado de reencontro com um ambiente que se provou confiável. Por isso, ela aparece, muitas vezes, de forma desorganizada: na agressividade, na provocação, no desafio. A criança que enfrenta busca a capacidade de encontrar. Seu ato pode ser um apelo relacional — um gesto que testa a força do vínculo.


Quando há esperança, a criança se arrisca novamente ao laço. A esperança permite reentrar na dor da falta sem ser submerso por ela. É nesse retorno que a espontaneidade pode ser recuperada e que a relação criativa com a realidade pode se esboçar.


Winnicott vai ainda mais longe: quando há esperança, o que estava apertado por dentro pode ser tocado, sentido e transformado. Quando ela existe, a criança pode usar seus impulsos e convertê-los em algo vivo na realidade. Daí nascem o brincar e o trabalho. Sem esperança, não há sublimação possível.


Nada disso se constrói por ensino formal. Amor precisa ser dito e também encarnado, sentido. O cuidado inicial é o solo de tudo o que vem depois. É ali, no corpo vivo da experiência, que o bebê aprende algo profundamente humano: que existe uma ligação possível entre sua realidade interna e o mundo externo; entre o gesto criador e aquilo que o mundo pode conter.


Após um milhar de experiências em que aquilo que é desejado encontra acolhimento, começa a se formar uma convicção silenciosa: a de que a vida pode, de fato, comportar o que é querido e necessário. É desse solo que nasce a esperança — não como promessa de felicidade, mas como confiança viva de que vale a pena tentar de novo.


Nas condições mais favoráveis, quando a continuidade da existência é preservada e o ambiente sustenta o ritmo do amadurecimento, a criança passa a viver algo simples e imprescindível: sentir-se real. Viver uma vida que lhe parece própria, ajustada à sua idade afetiva.


Afinal, este é um caminho que buscamos oferecer aos nossos filhos — e, tantas vezes, reencontrar em nós mesmos: a memória viva de que a vida pode se recompor diante dos obstáculos. Um mundo em que a segurança sustenta a confiança, e em que a confiança, mesmo quando atingida, não se perde — transforma-se em solo para o renascimento da esperança.

 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
Marca-Fundo-Azul.png

André Botinha de Sousa

CRM-MG 55.776

RQE 33.543

REDES SOCIAIS

  • Whatsapp
  • Instagram
bottom of page