Aquecimento para o Ano Novo
- André Botinha

- há 11 horas
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É estranho pensar que, com toda a tecnologia e conhecimento que temos hoje, há quem sustente que a mais disruptiva de todas as descobertas humanas foi pré-histórica: o domínio do fogo.
Há bons argumentos para isso. O fogo nos permitiu cozinhar, migrar para territórios antes inabitáveis, afastar predadores — mas talvez seu efeito mais profundo tenha sido outro: ao redor da fogueira, aprendemos a contar histórias. E, ao contá-las, começamos a nos tornar humanos de um modo novo. A fogueira não apenas aquecia o corpo. Ela organizava a mente e, silenciosamente, a alma.
À primeira vista, é fácil subestimar esse ritual e reduzi-lo a entretenimento. Mas histórias nunca foram apenas distração. Elas educam, inspiram, moldam valores, constroem identidades. Hoje, nossas “fogueiras” são virtuais: ubíquas, permanentes, incessantes. Um fogo que nunca se apaga e que aquece a mente — mas que nem sempre aquece a alma. Porque histórias não vivem só no pensamento. Elas vivem na construção da identidade.
Na infância, as narrativas que ouvimos — e aquelas das quais participamos — vão tecendo a imagem que passamos a cultivar de nós mesmos. Sérgio Kehdy, um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Minas Gerais, contou certa vez que, durante a pandemia, as histórias que o acompanhavam foram sua maior fonte de saúde mental. Faz sentido: quando tudo parece incerto, são as narrativas que nos oferecem uma orientação.
Aos 40 anos, eu pude experimentar isso de um jeito inesperado. Ganhei de presente de aniversário vídeos de familiares e amigos contando histórias que vivemos juntos. Esses relatos puxaram outros. Cada encontro virou uma pequena fogueira. E, pouco a pouco, fui percebendo: boa parte de quem sinto que sou vive ali, naquela teia de memórias narradas.
É por isso que o nascimento de um filho carrega algo de misterioso. Ao nos tornarmos pais, somos convocados a revisitar quem fomos. Memórias voltam. Histórias adormecidas despertam. O passado pede para ser contado outra vez — agora para alguém que nos olha como se fôssemos o mundo.
A ciência confirma aquilo que a vida sempre soube. Pesquisas conduzidas por Trina Spencer e Douglas Petersen mostram que a capacidade de uma criança contar histórias na entrada da escola é um dos melhores preditores de seu desempenho em leitura e escrita até dez anos depois. Contar histórias treina algo muito mais amplo do que vocabulário: exige organizar eventos no tempo, compreender causas, inferir intenções, dar sentido ao vivido. É, no fundo, um treino de mente e de singularidade.
Outros estudos, realizados na New School, mostraram que a leitura de ficção literária — aquela com personagens complexos e ambíguos — melhora a chamada “teoria da mente”: nossa capacidade de compreender o que o outro sente, pensa e deseja. Histórias, quando bem contadas, nos obrigam a sair de nós mesmos.
Uma revisão científica mais recente chamou isso de “simulador social”: ao acompanhar personagens, crianças ensaiam empatia, raciocínio moral e perspectiva. É como se a imaginação fosse um campo de treinamento para a vida.
E o que entra em forma de história permanece. Jerome Bruner, um dos pais da psicologia cognitiva, estimou que fatos integrados a narrativas são até 20 vezes mais lembrados do que informações soltas. Peg Neuhauser mostrou algo semelhante: aprendemos e guardamos melhor aquilo que vem envolto em história.
Psicólogos como Dan McAdams e Kate McLean descrevem a identidade humana como uma narrativa em constante construção: uma história interna que integra o que fomos com o que esperamos ser. Desde cedo, as crianças começam a organizar suas experiências em relatos: “isso aconteceu”, “eu senti aquilo”, “depois fiz isso”. A cada experiência, vão aprendendo não apenas a lembrar, mas a dar sentido.
Pesquisas de Jennifer Pals Lilgendahl e Dan McAdams mostram que pessoas que interpretam suas experiências difíceis como oportunidades de crescimento emocional e relacional tendem a apresentar maior bem-estar ao longo da vida. Não se trata de negar a dor, mas de interpretá-la em uma história maior, onde pode haver aprendizado, vínculo e, com sorte, amadurecimento.
Na primeira infância, isso começa no colo. Estudos de Penny van Bergen e Karen Salmon mostram que pais que conversam com seus filhos sobre eventos passados de forma rica, aceitando nuances e complexidade, ajudam as crianças a desenvolver um conhecimento emocional mais profundo. Ou seja: quando contamos e ouvimos histórias com nossos filhos estamos literalmente participando da construção de quem eles serão.
É por isso que o Ano Novo não é apenas um marco no calendário. É um convite narrativo. Todo fim de ano nos pega escrevendo, ainda que em silêncio, as histórias que gostaríamos de viver. Promessas de Ano Novo são tentativas de reescrever o enredo.
Talvez o maior presente deste novo ano não seja uma rotina impecável, nem metas inatingíveis. Talvez seja algo mais simples e, até, mais difícil: sentar ao redor da nossa fogueira cotidiana e contar as histórias certas.
Histórias que aqueçam. Histórias que deem chão. Histórias que façam nossos filhos se sentirem parte de algo maior.
Porque, no fim, é assim que atravessamos o tempo: com narrativas. E o futuro, como sempre, começa em uma história em que possamos acreditar com profundidade.




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