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Comportamento é linguagem

  • Foto do escritor: André Botinha
    André Botinha
  • 29 de mar.
  • 4 min de leitura

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"Diz-que-direi  ao  senhor  o  que  nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer  que  isso  seja,  e  vai,  na  ideia,  querendo  e  ajudando; mas, quando  é  destino  dado,  maior  que  o  miúdo,  a  gente  ama inteiriço  fatal,  carecendo  de  querer,  e  é  um  só  facear  com  as surpresas. [...] Tudo turbulindo."

João Guimarães Rosa.


Há momentos em que a cena é pequena, mas o que ela carrega é grande.


Uma criança observa outra receber algo — um pedaço maior, um elogio, um olhar mais demorado — e, quase imediatamente, reage de forma exasperada, como quem diz:


“Você não pode gostar mais dele do que de mim!”


Para o adulto, a reação pode parecer desproporcional. Surge o impulso de explicar, organizar, dar sentido ao que aconteceu. Tentar mostrar que há uma lógica, um cuidado, uma intenção.


Curiosamente, esse tipo de explicação nem sempre resolve.


Porque, naquele momento, o que está acontecendo não é uma avaliação racional da situação. A criança está vivendo uma experiência emocional inteira. E o que aparece como comparação ou injustiça pode esconder uma pergunta muito mais delicada:


“Eu ainda tenho um lugar”?


Foi a psicanalista Françoise Dolto quem chamou atenção para algo contraintuitivo nesse tipo de situação. Ao falar sobre conflitos entre crianças, ela sugere que tentar convencer a criança de que somos justos não apenas falha — mas pode agravar a situação. Para ela, a questão não é estabelecer uma justiça objetiva, mas reconhecer a experiência vivida. A criança não busca uma igualdade abstrata. Ela busca sentir que continua tendo lugar no vínculo.


Essa ideia pode causar estranhamento. Afinal, estamos acostumados a pensar que o problema está no comportamento — na comparação, no ciúme, na disputa. Mas, quando olhamos mais de perto, algo diferente começa a aparecer.


Talvez a comparação não seja apenas uma tentativa de medir quem se saiu melhor. Talvez seja uma forma de tentar entender onde se está.


E isso não é exclusivo da infância. E a importância de refletir sobre isso talvez não esteja apenas em saber lidar melhor com os filhos, mas na tarefa — nada simples — de entendermos como nós também funcionamos e como reagimos ao que sentimos.


A vida adulta também é atravessada por experiências semelhantes, especialmente nas relações mais importantes. São justamente os vínculos mais próximos — aqueles que mais importam — que carregam maior potencial de conflito. Porque neles nos expomos mais, esperamos mais e, muitas vezes, medimos o outro a partir da nossa própria régua.


Não raro, o que nos desorganiza não é exatamente o que aconteceu — mas a expectativa que criamos sobre o que deveria ter acontecido.


A partir daí, a distância entre o real e o esperado pode crescer — alimentada pela imaginação, pelas interpretações, pelos sentidos que vamos construindo ao longo do caminho.


E não é apenas a metáfora do copo meio vazio que ajuda a entender isso. Há uma outra imagem possível:


Imagine uma mesa com três pernas. Duas estão firmes. Uma delas, porém, está apenas um centímetro mais curta. A mesa continua de pé, mas qualquer objeto colocado sobre ela começa a balançar. O problema parece estar na mesa inteira, mas, na verdade, está concentrado em um pequeno ponto de instabilidade.


Na vida, algo parecido pode acontecer.


Um gesto, um olhar, uma diferença quase imperceptível pode tocar em algo mais profundo — e, de repente, a experiência inteira se desorganiza. Não porque tudo está indo mal, mas porque algo importante perdeu o alinhamento.


Do ponto de vista emocional, isso raramente é sobre o presente apenas. Muitas vezes, é sobre o que aquilo ativa.


O pediatra Donald Winnicott ajuda a dar um passo além nessa compreensão ao trazer um paradoxo interessante: alguns comportamentos difíceis da criança não são apenas sinais de desajuste — são sinais de esperança.


Isso porque, muitas vezes, a criança já experimentou um certo tipo de presença, de cuidado ou de resposta do ambiente… e, em algum momento, algo não se sustentou. Quando ela protesta, insiste ou se compara, pode estar tentando, de forma ainda imatura, dizer:


“Olhe para mim. Algo que eu esperava encontrar não aconteceu.”


Isso muda completamente a forma de olhar para a cena.


A comparação deixa de ser apenas disputa e passa a ser uma linguagem. Um modo, ainda imaturo, de tentar garantir um lugar no olhar e no cuidado do outro. E talvez seja por isso que a explicação lógica não funcione. Porque o que está em jogo não é um erro de entendimento — é uma necessidade de reconhecimento.


Curiosamente, esse funcionamento não desaparece ao longo da vida. Ele apenas se transforma. Adultos tendem a ser mais contidos. Nem sempre dizem o que sentem. Mas continuam interpretando gestos, colocando significados, buscando sinais de valor e pertencimento. No lugar de protestar abertamente, podem se afastar, retrair, se fechar. O núcleo, no entanto, permanece semelhante: a esperança de que o outro responda, de que algo possa ser reconhecido, de que o vínculo possa se reorganizar.


Talvez seja essa uma das lições mais silenciosas que a infância oferece.


Por trás de muitos comportamentos difíceis, há uma tentativa de manter o vínculo vivo. Um movimento que, mesmo desajeitado, ainda acredita que existe uma solução possível — e que ela pode ser reencontrada.


Diante disso, a questão deixa de ser apenas como corrigir o comportamento. E passa a ser outra:


O que, nessa situação, precisa ser reconhecido para que a criança volte a se sentir segura no vínculo?


Essa mudança de pergunta não elimina os conflitos, não torna as situações mais simples, nem mais fáceis. Mas desloca o olhar. Sai da tentativa de corrigir o comportamento e se aproxima daquilo que o comportamento tenta comunicar


Talvez, no fim, não seja sobre garantir igualdade. Mas sobre sustentar algo mais essencial: a experiência de que, mesmo quando o mundo parece adverso, ainda há um lugar onde se pode ser visto — e querido.

 
 
 

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André Botinha de Sousa

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